
Olhares cruzados conecta dois territórios populares, na França ou em outros países. O projeto constrói uma correspondência por meio de imagens, sons, textos, mapas e, às vezes, viagens. Permite que grupos que provavelmente nunca se encontrariam compartilhem seus modos de habitar, suas referências, suas memórias e suas perguntas.
A ideia não é comparar dois bairros como se pudessem ser colocados na mesma escala. Cada território tem sua história, suas línguas, suas relações sociais e suas formas de organização. Buscamos, antes, fazer com que ressoem entre si: partir de perguntas comuns, deixando aparecer as distâncias, as singularidades e os mal-entendidos que tornam o encontro real.
Cada lado do projeto é conduzido com um parceiro local que conhece o território e mantém uma relação de confiança com quem participa. Os grupos trabalham primeiro a partir do próprio contexto: percorrem o bairro, fotografam, gravam, escrevem e escolhem o que querem enviar ao outro grupo. A correspondência, portanto, não substitui o enraizamento; ela o aprofunda, porque obriga a formular o que se quer transmitir.
As trocas podem assumir diferentes formas: séries fotográficas que respondem a uma mesma proposta, cartas sonoras, mapas comentados, retratos, perguntas gravadas, objetos, fragmentos de arquivo, videochamadas, cadernos ou curtas-metragens. As línguas são vistas como uma riqueza do projeto. A tradução não é apenas funcional: ela se torna um espaço de mediação, onde se explicam referências, se buscam equivalências e se aceita que uma experiência nunca se traduz por completo.
O trabalho editorial cruzado é uma etapa essencial. Cada grupo descobre as produções do outro, faz perguntas, identifica ecos e discute o que poderia ser apresentado em conjunto. Não se trata de fundir as narrativas, mas de construir uma montagem que torne visíveis as relações: gestos parecidos, contrastes de escala, maneiras diferentes de ocupar o espaço público, lembranças de transformações ou visões de futuro.
A devolutiva deve acontecer nos dois territórios. Uma exposição, uma publicação ou uma exibição deve permitir que cada grupo veja o próprio trabalho voltar para casa, acolhendo ao mesmo tempo o olhar do outro. Quando as condições permitem, as produções podem circular ou ser reinterpretadas localmente, para que o projeto não seja apenas uma troca a distância, mas uma presença concreta no lugar onde as pessoas vivem.
Olhares cruzados desenvolve uma solidariedade entre territórios que não se apoia no exotismo nem na descoberta superficial. Quem participa aprende a se situar, a escutar experiências distantes, a identificar questões comuns e a reconhecer formas de invenção popular. O projeto afirma que as periferias podem se relacionar diretamente, sem ter de passar sempre pelos centros que falam em seu lugar.
Com o tempo, cada correspondência enriquece um arquivo translocal. As imagens e as narrativas produzidas em Bagnolet, Montreuil, Marselha, no Rio de Janeiro, em Medellín ou em Valle de Chalco podem voltar a circular em novos contextos, desde que se preservem os direitos, as legendas e as intenções de quem as criou.
em imagens














fotografias: quem participou das oficinas e a equipe da mOst
os álbuns
todos os projetos olhares cruzados
| ano | projeto | território | formatos |
|---|---|---|---|
| 2026 | favela ocho | medellín Llanaditas (Comuna 8) | |
| 2025 → 2026 | os menor da rua 4 · encontros populares | rio de janeiro Rocinha · Rua 4 | |
| 2025 | la galerie des ruches · rencontres la tl | marselha Les Ruches | |
| 2025 | le monde est à noue: rencontre rocinha | montreuil La Noue-Clos Français | |
| 2025 | la caps, une passion | bagnolet La Capsulerie · Casas ARA, Cerro del Marqués · Cruz Blanca | |
| 2024 | premières rencontres entre montreuil et rio | montreuil Bel Air, Grands-Pêchers · Rocinha, Júlio Otoni | |
| 2023 | la capsulerie × la noue | bagnolet La Capsulerie, La Noue | |
| 2022 | xpo olympique de bagnolet | bagnolet La Noue, La Capsulerie |






