A Mon oeil sur terre é uma associação que desenvolve projetos documentais, de artes visuais e de artes plásticas, cocriados com moradoras e moradores de territórios populares. Nosso ponto de partida é simples: quando um bairro é contado apenas de fora, as imagens se cristalizam, as trajetórias se simplificam, as memórias desaparecem e parte da fala coletiva se empobrece. Por isso, trabalhamos no ponto exato em que a representação é fabricada: quem conta, como e com que meios.
Consideramos os bairros populares espaços de cultura de pleno direito. Eles não são só lugares de intervenção, objetos de estudo ou cenários. São atravessados por saberes, histórias, gestos, formas de solidariedade, tensões, imaginários e práticas artísticas. Nosso trabalho é criar condições para que essa inteligência situada possa virar imagem, narrativa, obra, arquivo e fala pública.
Nossa atuação se insere no campo dos direitos culturais. Para nós, a cultura é um direito concreto: o direito de participar da vida cultural, de criar, de interpretar o próprio mundo, de transmitir uma memória e de ter uma representação digna. Isso implica deslocar os papéis. Moradoras e moradores não são “públicos” a serem alcançados, e sim autoras e autores das narrativas que lhes dizem respeito: são elas e eles que contribuem e decidem.
A mOst não se propõe a “dar voz”. A voz já existe. Buscamos reunir as condições para que ela possa se formular, circular, se confrontar com outras, ser protegida quando for preciso e deixar marca. Essas condições passam pela presença, pela confiança, pela regularidade, por ir ao encontro das pessoas, pela atenção aos ritmos e pela possibilidade de tatear sem julgamentos imediatos sobre o resultado.
No centro do nosso método está a cocriação. Não propomos uma sequência de oficinas avulsas, mas processos completos: encontro, investigação, aprendizado, produção, seleção, edição, devolutiva e arquivamento. As decisões são compartilhadas em todas as etapas, desde a escolha do tema até a questão do que vai ser mostrado, para quem, em que lugar e de que formas.
A educação do olhar atravessa todos os nossos projetos. Num mundo saturado de conteúdos visuais, saber produzir uma imagem e saber lê-la são duas competências inseparáveis. Transmitimos ferramentas técnicas, como o enquadramento, a luz, a composição, a captação de som e a montagem, e, ao mesmo tempo, desenvolvemos uma leitura crítica: o que uma imagem revela, o que ela apaga, as relações de poder que pode reproduzir e as contranarrativas que pode tornar possíveis.
Essa atenção às representações está ligada ao nosso compromisso contra as discriminações. Os territórios onde atuamos vivem muitas vezes a estigmatização social, territorial, racial ou cultural. Trabalhando a partir de dentro, quem participa pode tornar os olhares mais complexos, tornar visíveis experiências marginalizadas e contestar as categorias que aprisionam as pessoas e os bairros. A prática artística se torna, então, uma alavanca de dignidade, de reconhecimento e de igualdade simbólica.
A memória e os arquivos são outro eixo essencial. Demolições, reassentamentos, reformas, desaparecimento de lugares de convivência, mudanças no tecido social: o que não é documentado a partir de dentro corre o risco de se perder ou de ser substituído por narrativas administrativas. Construímos com moradoras e moradores arquivos vivos, acessíveis e transmissíveis, que ligam as lembranças, os usos do presente e os futuros imaginados.
Por fim, a devolutiva é um ato público. Expor numa esplanada, exibir um filme, publicar um livreto, colar retratos numa rua ou fazer ouvir vozes por QR code é dar presença pública a narrativas que, de outro modo, continuariam invisíveis. É também permitir que quem participa se veja de outra maneira e convidar outras pessoas a entrar no bairro pelo que se cria ali, e não pelo que se diz dele de longe.
Trabalhamos em escala local, com uma ambição translocal. De um projeto para outro, consolidamos um método, uma ética e uma rede capaz de ligar a Île-de-France (a região de Paris), Marselha e vários territórios da América Latina e da Argélia. Nossa convicção continua a mesma: as periferias não são margens culturais. Elas se tornam centros de criação, de memória e de invenção quando os meios de produzir, contar e transmitir são realmente compartilhados.
desde 2020
A associação foi criada oficialmente em 2020. Em 2021, um primeiro Ponto de vista reuniu moradoras e moradores de La Noue, em Bagnolet. Desde então, o mesmo método foi se aprimorando de bairro em bairro, na França e em outros países.

